Alfabetização de Adultos na Mineira

A Universidade a serviço da Comunidade

No dia 15 de janeiro deste ano foram iniciadas as atividades da Oficina de Ciências Sociais no Rio de Janeiro, através do GIS (Grupo de Intervenção Social), contando atualmente com quatro estudantes universitários que realizam um Curso de Alfabetização de Adultos no Morro da Mineira, no Catumbi, centro do Rio.

Estamos no início do 3° mês de curso e apesar de alguns problemas de ordem didática (desnível do conhecimento dos alunos, primeira experiência do grupo), o aproveitamento da turma, tanto em Matemática quanto em Comunicação, vêm crescendo à cada semana. Esta experiência de aula têm nos permitido repensar e questionar o modo de abordar o aluno no aprendizado, o método que utilizamos, a própria construção do conhecimento. E também nos faz refletir sobre o quanto a Universidade nos enriquece em percepções, argumentos, idéias e o quanto estes elementos do conhecimento no são utilizados em prol da melhoria da qualidade de vida deste Brasil não-oficial, que não possui o domínio pleno dos códigos sociais que são usados por grupos privilegiados pelo acesso ao saber formal e às formas de financiar este acesso. Este Brasil não-oficial que nos acostumamos a chamar de povo como algo externo à nossa existência, como se não fôssemos também parte deste mesmo povo.

É exatamente aqui onde está o problema principal: a maior parte da população paga imposto, sustenta a produção de conhecimento da Universidade (que é dirigida para grandes empresas, governos e forças armadas) e não recebe o retorno devido pois mora em favelas sofre não só com a violência cotidiana como também com a falta de infra-estrutura para solucionar problemas práticos mais gerias tais como lixo, moradia e saneamento básico. Este problema deve ser incluído na pauta das discussões universitárias, para que nossas preocupações se voltem para o bem-estar social e não para mais para a elite.

Não se trata, portanto, de dizer que o conhecimento científico, filosófico e histórico é um mal da sociedade capitalista mas antes que isso: este conhecimento sempre privilegiou uma classe, um setor da sociedade em detrimento do outro. Nós temos uma dívida para com nossos irmãos das favelas, das ruas, das vilas e dos subúrbios - uma dívida para com os menos favorecidos que não podem estar na Universidade. A velha prática do movimento estudantil de "gritos slogans", cooptação de pessoas para que constituam apenas uma massa para manifestações onde ninguém é beneficiado e segurar bandeirinhas nos parece insatisfatória na busca de soluções para os problemas sociais. No sentido de dar uma resposta séria e prática a um deste problemas - o analfabetismo - nós do GIS-Rio temos contribuído, modestamente por sermos poucos e estarmos em um processo inicial, através da aplicação de um método educacional desenvolvido pelo o esforço e conhecimento de membros do GIS-Niterói, para que se construa um conhecimento em contraposição a forma tradicional de professor (como o profeta do saber) e aluno (o ouvinte passivo).

Deste modo, enfocamos a participação efetiva dos alunos no processo, partindo sempre do que cada um aprendeu durante a vida. Desenvolve-se, assim, uma nova dimensão para o Magistério e para o Estudante, baseada na autonomia do sujeito, da sua individualidade, ao contrário da educação atual que promove e fortalece o individualismo, o pensamento único, a não-reflexão e a conformidade. Esta metodologia, construída e aprimorada cotidianamente, possibilita o desenvolvimento de questões e soluções a partir de uma reflexão crítica de nossa própria profissão e formação universitária, para que não sejamos meros técnicos ou pesquisadores preocupados apenas em aplicar métodos, esquecendo de perguntar a respeito do fundamento dos mesmos.